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A volta às aulas pós-pandemia

A volta às aulas pós-pandemia

A volta às aulas presenciais após a pandemia da Covid-19 não será como a volta de professores e estudantes após um período de férias. O prolongado isolamento social, bem como a crise sanitária e financeira resultantes da pandemia causam significativos impactos psicológicos na população. As crianças e adolescentes, por serem indivíduos em pleno desenvolvimento cerebral e da personalidade, são mais susceptíveis a esses efeitos neuropsicológicos.

Crianças são como verdadeiras "esponjas" do ambiente em que vivem. Sentem tudo, absorvem tudo! A ansiedade, a insegurança e o medo, particularmente o medo pela própria vida e pela vida de parentes, são cargas emocionais que estarão presentes em menor ou maior grau no período de volta às aulas.

Em estudo recente, foi identificado que, em média, 15,9% de crianças e adolescentes expostos a situações traumáticas de várias naturezas acabam desenvolvendo Síndrome de Estresse Pós-Traumático. Esse percentual aumenta para 89% nos casos de traumas mais intensos, como a morte de parentes próximos, por exemplo.

Dessa forma, é de se esperar que a saúde mental dos alunos e dos profissionais da Educação esteja bastante afetada no momento de volta às aulas, ainda que em diferentes formas e graus.

Entre os efeitos individuais desse chamado "estresse tóxico", estão a depressão, comportamentos agressivos e maior conflito entre os pares, dificuldade de concentração e insônia.

A atitude dos pais e responsáveis dentro de casa durante o período de isolamento social pode prevenir ou ao menos minimizar parte do problema. As crianças e adolescentes buscam a segurança em seus pais. Dessa forma, o equilíbrio e o bom senso tem que vir de nós, adultos! Reinventar rotinas, adotar posturas positivas e atitudes altruístas pode
ajudar muito a superar essa fase e propiciar ensinamentos que ficarão para a vida toda, dando subsídios para que a criança de hoje seja no futuro um adulto capaz de enfrentar e resolver problemas com resiliência e equilíbrio.

Outro aspecto que deve ser levado em consideração é a preocupação dos pais com a saúde física de seus filhos na volta às aulas presenciais. Como agir? Quais cuidados tomar? Meu filho pode pegar o coronavírus na escola? Pode ser grave? As crianças podem passar o vírus para outros membros da família? Essas são perguntas certamente presentes e que causam angústia nos pais.

Apesar dos casos graves serem pouco frequentes, particularmente em menores de 10 anos de idade, as crianças são infectadas da mesma forma que os adultos. A transmissão da Covid-19 ocorre por contato direto por meio de gotículas eliminadas com a tosse, espirros e fala, bem como pelo contato com superfícies contaminadas (objetos, corrimãos, brinquedos) com essas secreções. Ao tocar em uma superfície contaminada, o vírus "passa" para as mãos e, ao tocar os olhos ou o nariz com as mãos, o indivíduo se auto inocula e pode adquirir a infecção. Por isso é tão importante o distanciamento social e a higienização das mãos, assim como evitar levar as mãos ao rosto.

Esses ensinamentos devem ser fornecidos às crianças e adolescentes por seus pais, aproveitando o período do isolamento social, em que estamos em casa com nossos filhos a maior parte do tempo. Há um livro escrito por Içami Tiba cujo título é Quem Ama Educa!, e esta é uma frase muito verdadeira. Se é possível tirar algo bom dessa
pandemia, pode-se dizer que a necessidade, ainda que forçada, das crianças estarem em casa com seus pais, não em férias, mas no dia a dia, durante o home office e as aulas online, propicia uma oportunidade ímpar para o fortalecimento da família e a educação dos filhos, que jamais poderá ser delegada a terceiros. Sim, é possível enxergar
oportunidades em meio à crise.

Evidentemente, a forma de passar esses ensinamentos é diferente para as diferentes faixas etárias. Pode-se ensinar sobre distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos a crianças menores de forma lúdica, por meio de brincadeiras e analogias (como por exemplo, associar o uso de máscaras aos super-heróis), e de forma mais direta aos adolescentes. O importante é tornar esses momentos de aprendizado agradáveis, momentos de fazer algo juntos, rir juntos.

O real papel das crianças como transmissores da doença não está completamente esclarecido. É provável que, em sendo portadores de quadros leves ou até assintomáticos, a transmissibilidade das crianças seja menor. Porém, essa hipótese não está confirmada e temos que presumir que as crianças infectadas podem sim transmitir a doença a outros membros da família e estes, se apresentarem fatores de risco como hipertensão arterial, diabetes, obesidade entre outros, podem desenvolver quadros mais graves. Isso torna a educação quanto aos cuidados citados acima ainda mais importante.

Outro aspecto que vale a pena ressaltar é que essas medidas de distanciamento social e cuidados com higienização protegem também de outras infecções virais, frequentes e por vezes graves nas crianças, como o vírus da gripe e o vírus sincicial respiratório.

Recentemente, a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou uma nota de alerta intitulada Covid-19 e a Volta às Aulas, destacando os pontos mais importantes a ser considerados por ocasião do retorno às atividades escolares presenciais, com sugestões para pais, educadores e escolas quanto às medidas para aumentar a segurança.

Várias recomendações foram feitas nesse documento científico e os responsáveis pelas escolas devem estar sensíveis e criar mecanismos que permitam implementá-las, inclusive flexibilizando as cobranças sobre os estudantes. Entre as recomendações, destacam-se:

1. Crianças com sinais de infecção não devem ser mandadas à escola;

2. A escola deve oferecer diversos locais para lavagem de mãos, água e sabão, álcool em gel, e higienizar frequentemente os recintos e superfícies, bem como propiciar ambientes arejados, com aberturas de janelas. Atividades ao ar livre devem ser estimuladas;

3. A escola deve evitar aglomerações na entrada e saída de alunos ou intervalos criando horários alternativos para as turmas. Jogos, competições, festas, comemorações e atividades que envolvam aglomeração devem ser suspensos;

4. Medidas de distanciamento social devem ser adotadas na escola e no transporte escolar, respeitando a distância mínima de um metro entre as carteiras e assentos. Sugere-se diminuir o número de alunos por sala, dividindo-os em
grupos que se alternem entre a atividade presencial e à distância.

5. Estudantes que tenham contraindicações de frequentar a escola por serem imunocomprometidos, ou tenham doenças crônicas, devem continuar com as aulas no sistema online.

6. Caso a criança ou membros da família apresentem teste positivo para a Covid-19, a escola deve ser imediatamente comunicada. A criança deve ficar afastada da escola e seu retorno condicionado à melhora dos sintomas e não antes de 14 dias, a contar do primeiro dia do surgimento dos sintomas.

7. Higienização frequente das mãos, especialmente antes e após as refeições e a ida ao banheiro, devem ser frequentes. Ensinar a técnica adequada, conforme orientada pelo Ministério da Saúde, com duração mínima de 40 segundos utilizando água e sabão ou de 20 segundos quando utilizado álcool em gel;

8. Álcool em gel deve ser disponibilizado para que alunos possam utilizá-lo com segurança e responsabilidade (crianças maiores e adolescentes que saibam utilizá-lo podem levar o seu próprio álcool gel). Cuidado com crianças pequenas, para as quais é mais seguro usar água e sabão;

9. A escola deve manter lavatórios em bom funcionamento e abastecidos com sabão e papel toalha;

10. O uso de lenços de pano deve ser evitado, dando preferência para o uso de lenços descartáveis ou do antebraço (cotovelo dobrado) ao tossir ou espirrar;

11. Olhos, boca e nariz não devem ser tocados;

12. Cada estudante deve utilizar sua própria garrafa de água e não compartilhá-la, utilizando os bebedouros comuns apenas para encher essas garrafas novamente;

13. O uso de máscaras deve ser estimulado, sendo contraindicado apenas em crianças menores de dois anos, pelo risco de sufocação e em indivíduos que apresentem dificuldade em removê-las. As máscaras devem ser trocadas a cada duas a quatro horas, ou antes se estiverem sujas, úmidas ou rasgadas. Portanto, a criança deve levar mais de uma máscara para a escola. Jamais compartilhar o uso da mesma máscara com colegas;

14. A escola deve realizar a limpeza de seus ambientes pelo menos uma vez ao dia e, mais frequentemente, das áreas de maior circulação de pessoas, assim como dos objetos mais tocados (maçanetas, interruptores, teclados por exemplo).

Por fim, a pandemia causada pelo SARS-Cov-2 trouxe grandes prejuízos para a saúde física, mental e até financeira de toda a população. As consequências sociais são imensas. Sentimentos como medo, angústia e insegurança são absolutamente compreensíveis. Porém, cabe aos adultos manter o equilíbrio e fornecer a nossos filhos a segurança que buscam em nós. Atitudes de acolhimento, compreensão e amor são fundamentais. Não é o momento de cobrar demais as crianças e adolescentes, mas sim ouvi-los. Não é possível negar o problema existente, devemos, sim, enfrentá-lo com coragem, dignidade e promovendo a educação dos nossos filhos.

*Mário Ferreira Carpi é coordenador da Linha de Cuidados Pediátricos - Rede Ímpar - Regional Brasília (Hospital Brasília/ Hospital Águas Claras/ Maternidade Brasília); diretor Científico da Pediatria da Sociedade Paulista de Terapia Intensiva - SOPATI - Biênio 2020-2021; e coordenador e Professor de Cursos de Pós-Graduação em Pediatria, Emergências Pediátricas e UTI-Pediátrica da Faculdade IBCMED

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Especialista alerta para os cuidados dos pais no retorno das crianças ao ambiente escolar

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Rachel Botsman

Autora do livro "O Que é Meu é Seu - Como o Consumo Colaborativo Vai Mudar o Nosso Mundo", Rachel Botsman diz que estamos conectados para compartilhar. Em 15 minutos, ela tenta te convencer que o consumo colaborativo é o caminho.