A morte do menino Oliver Golden Grayson, de apenas 3 anos, espancado pelo próprio pai em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, na semana passada, eacendeu em todo o país o debate sobre a violência contra crianças e adolescentes. O crime, que chocou o Brasil pela brutalidade, não é um episódio isolado. Os números mostram que milhares de crianças e adolescentes continuam sendo vítimas de agressões todos os anos, muitas vezes dentro da própria casa e praticadas por pessoas responsáveis por protegê-las.
Na Bahia, dados inéditos obtidos pela Tribuna da Bahia junto à Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) revelam que as notificações de violência interpessoal e autoprovocada cresceram de forma contínua nos últimos seis anos. Entre 2020 e 2025, os registros passaram de 4.406 para 10.303 casos, um aumento de aproximadamente 134%. Ao todo, foram contabilizadas 44.216 notificações envolvendo crianças e adolescentes de até 19 anos entre 2020 e 2026. Os dados deste ano ainda são parciais, com 4.549 ocorrências registradas até 7 de julho.
O crescimento observado na Bahia acompanha um cenário nacional igualmente preocupante. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, somente nos quatro primeiros meses de 2026 foram registradas
115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes em todo o Brasil por meio do Disque 100. A maior parte das vítimas é do sexo feminino e, assim como apontam os dados baianos, o ambiente doméstico continua sendo o principal local onde as agressões acontecem.
Denúncias
Embora os bancos de dados sejam diferentes, o Disque 100 reúne denúncias encaminhadas pela população, enquanto o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registra casos atendidos pelos serviços de saúde, ambos apontam para a mesma realidade: a violência contra crianças e adolescentes permanece elevada e exige respostas mais efetivas do poder público e da sociedade.
Acelerado – A série histórica da Sesab mostra que as notificações cresceram ano após ano. Em 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19, foram registrados 4.406 casos. No ano seguinte, o número subiu para 4.849. Em 2022, já eram 5.736 notificações. O avanço tornou-se ainda mais intenso em 2023, quando o estado contabilizou 7.356 casos, chegando a 7.990 em 2024 e atingindo o maior patamar da série em 2025, com 10.303 registros.
Os dados de 2026 ainda são parciais e, por isso, não podem ser comparados diretamente aos anos anteriores. Mesmo assim, até o início de julho, o estado já havia registrado 4.549 notificações. Para a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Divep), responsável pela gestão do Sinan na Bahia, o crescimento pode refletir tanto o aumento das ocorrências quanto o fortalecimento da rede de identificação e da notificação compulsória pelos serviços de saúde.
Violência física lidera os registros
Entre todos os tipos de violência registrados, a física continua sendo a mais frequente. Foram 2.364 notificações em 2020. Cinco anos depois, esse número praticamente dobrou, chegando a 4.855 casos em 2025. Outro dado que preocupa especialistas é o crescimento das lesões autoprovocadas, indicador frequentemente associado ao sofrimento psíquico e aos transtornos de saúde mental entre adolescentes.
Os registros passaram de 795 casos em 2020 para 2.336 em 2025, quase três vezes mais. A violência sexual também permanece em patamar elevado. Depois de saltar de 674 notificações em 2020 para 1.336 em 2022, os números continuaram acima de 1.400 casos anuais nos anos seguintes. Segundo a Sesab, entre os diversos tipos de violência sexual, o estupro é o evento mais frequente durante toda a série histórica.
Outro fenômeno que chama atenção é o crescimento das notificações por negligência e abandono. Os registros passaram de 697 casos em 2020 para 1.711 em 2025, evidenciando que a omissão de cuidados também representa uma importante forma de violência contra crianças e adolescentes.
Perfil das vítimas
O levantamento da Sesab mostra que a violência atinge crianças e adolescentes de todas as idades, mas ocorre com maior frequência entre os adolescentes. Do total de 44.216 notificações registradas entre 2020 e 2026, 46% envolveram jovens de 15 a 19 anos, enquanto 24% ocorreram entre adolescentes de 10 a 14 anos. Somadas, essas duas faixas representam sete em cada dez casos notificados no estado.
Os dados também demonstram que a violência começa cedo. Crianças de 1 a 4 anos representam 12% das notificações, enquanto aquelas entre 5 e 9 anos correspondem a 11%. Até mesmo bebês com menos de um ano aparecem nas estatísticas, respondendo por 7% dos registros.
O perfil das vítimas também evidencia uma desigualdade de gênero. As meninas representam 61% dos casos notificados, contra 39% de vítimas do sexo masculino. Para a Sesab, esse resultado está diretamente relacionado, sobretudo, ao elevado número de notificações de violência sexual e de violência praticada no ambiente doméstico.
No recorte por raça e cor, pessoas autodeclaradas pardas concentram 60% das notificações, seguidas pelas pretas (14%) e brancas (8%). Segundo a Secretaria da Saúde, o perfil acompanha a composição demográfica da população baiana, mas também reforça a necessidade de atenção às desigualdades raciais relacionadas à violência.
O perigo mora dentro de casa
Se os números sobre o crescimento da violência já preocupam, o perfil dos prováveis autores torna o cenário ainda mais alarmante.Ao contrário da percepção de que a maior ameaça vem das ruas, boa parte das agressões ocorre justamente dentro do ambiente familiar.
Entre 2020 e 2026, a mãe apareceu como provável autora em 6.608 notificações, enquanto o pai foi apontado em 4.401 casos. Juntos, eles somam mais de 11 mil registros. Também aparecem entre os principais vínculos amigos ou conhecidos (4.088), pessoas não identificadas (3.513), padrastos (1.070), irmãos (719), companheiros ou cônjuges (905) e namorados (1.373).
O levantamento também contabiliza 9.598 notificações de lesões autoprovocadas, nas quais a própria vítima é identificada como autora da violência. Segundo especialistas, esses casos refletem o crescimento do sofrimento psíquico entre adolescentes e reforçam a necessidade de ampliar o acesso aos serviços de saúde mental.
Para a Sesab, os dados demonstram que a violência contra crianças e adolescentes ocorre predominantemente no contexto das relações familiares e de convivência próxima, tornando ainda mais difícil sua identificação e denúncia.
Subnotificação
Embora os números sejam elevados, especialistas alertam que eles provavelmente representam apenas parte da realidade. Isso porque muitas situações de violência nunca chegam ao conhecimento das autoridades ou dos serviços de saúde. Em diversos casos, o medo, a dependência financeira, a convivência diária com o agressor e até a dificuldade de identificar sinais de violência fazem com que as ocorrências permaneçam invisíveis durante anos.
A própria Sesab destaca que o fortalecimento da rede de notificação compulsória também contribuiu para o aumento dos registros nos últimos anos, o que significa que parte desse crescimento pode estar relacionada à melhoria da identificação dos casos pelos profissionais de saúde.
Prevenção
Para enfrentar o problema, a Secretaria da Saúde da Bahia afirma que tem intensificado ações de capacitação voltadas aos profissionais da rede pública para identificar, notificar e acolher vítimas de violência. Também são realizadas oficinas de qualificação da vigilância epidemiológica, campanhas educativas e ações de mobilização durante o Maio Laranja, mês dedicado ao combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.
Entre as iniciativas estão palestras, videoaulas e atividades de sensibilização voltadas tanto aos profissionais de saúde quanto à população, buscando ampliar o reconhecimento dos sinais de violência e estimular a notificação precoce.
Especialistas, no entanto, destacam que o enfrentamento depende da atuação conjunta dos serviços de saúde, escolas, conselhos tutelares, Ministério Público, Judiciário, forças de segurança e da própria sociedade.
Denúncias – Casos de violência contra crianças e adolescentes podem ser denunciados pelo Disque 100, que funciona gratuitamente e recebe denúncias de forma anônima durante 24 horas por dia.
Também é possível procurar o Conselho Tutelar do município, delegacias especializadas, Ministério Público ou qualquer unidade de saúde, que possui obrigação legal de notificar casos suspeitos ou confirmados de violência.



