Colecionando uma longa lista de personagens icônicos, a multipremiada atriz Laura Cardoso fez mais de 60 novelas ao longo de sua extensa história. Ganhadora de três Grandes Otelos, Laura passou a vida inteira fazendo o que amava: atuar.
Mencionada por Susana Vieira como uma “grande professora”, ela mantinha um padrão de qualidade rígido, em que escolhia apenas as tramas que a cativavam.
“Sempre tenho muitos convites para fazer teatro, cinema, televisão. Mas eu sempre fui um pouco elitista, no bom sentido. Eu procuro um bom texto, um bom diretor e um bom elenco. A minha carreira nunca foi norteada por dinheiro, sempre vou pela arte, pela qualidade e não pela quantidade. Prefiro fazer um trabalho que o financeiro seja menor e tenha o prazer de ganhar um prêmio, de ser reconhecida pela crítica. Fico muito feliz.” – Laura Cardoso ao Estadão, em janeiro de 2001.
Sua performance quase hipnótica nos presenteou com personagens incríveis, angustiantes, irritantes, engraçados ou até mesmo controversos, mas todos mantendo uma atuação de excelência.
Quem não se lembra da Dona Carmem, de Chocolate com Pimenta (2003)? A avó de Ana Francisca, protagonista vivida por Mariana Ximenes. Carmem era carinhosa e engraçada, com seu jeito caipira, bem-humorado e sem papas na língua e humilde. Mesmo após o enriquecimento da neta, manteve seus hábitos e valores.
Duas personagens que parecem ter uma raiz parecida são a Dona Dorotéia de Gabriela (2012) e Caetana de O Outro Lado do Paraíso (2017), as duas traziam uma bagagem de um passado com a prostituição, mas com formas diferentes de lidar com isso.
Caetana era engraçada e adorava uma farra e a vida boêmia, servindo quase como um contraponto à ideia etarista de que a pessoa envelhece e se torna conservadora, ou então precisa seguir um padrão de quietude e classe. A personagem não tinha filtro algum, o que a tornava grandiosa e cheia de camadas profundas além da bagagem de ‘quenga’, que ela se orgulhava, sem nenhum tipo de peso, em manter.
Já Dorotéia, a senhora defensora da moral e dos bons costumes, extremamente religiosa, não se orgulhava de seu passado e fazia toda a questão de esconder. Não só ocultava como julgava as trabalhadoras do Bataclã, o famoso bar que oferecia serviços de prostituição. A personagem era uma crítica à hipocrisia e carregava o bordão “Jesus, Maria, José!” quando via algo que ia contra a ideologia dela.
Vale uma menção a Isaura de Mulheres de Areia (1993), mãe das gêmeas Ruth e Raquel, que era a grande cúmplice das trambicagens e vilanias de Raquel, na maior parte das vezes prejudicando Ruth. Outra personagem bem lembrada é a Guiomar de A Viagem (1994), uma bondosa matriarca que acabou entrando na lista da vingança do espírito de Alexandre, que a possuía e a tornava uma pessoa agressiva e implicante.
Laura viveu arte e seu talento atravessou décadas, nunca se aposentou e seguiu fazendo o que amava e negava qualquer preconceito etarista sobre a atuação, seu estilo de vida e legado.
“Velhinha, não! Eu recuso. É vivida!” – Laura Cardoso ao Provocações na TV Cultura em 2014.
Seu óbito ocorreu na noite da última segunda-feira (17), aos 98 anos, a menos de um mês do seu aniversário. Na mesma entrevista à TV Cultura, Laura contou como gostaria que fosse sua morte, algo que hoje impressiona como uma verdadeira previsão.
“Sabe aquela coisa…Morreu dormindo. É santo, né? É de Deus!” – Diz Laura.
Descanse em paz, Laura Cardoso. Grande mulher e grande atriz. Sua arte sempre será lembrada!



