Na concentração para o protesto, cantos ancestrais e rituais que evocavam séculos de história marcaram a Marcha Global dos Povos Indígenas em Belém. Representantes originários de todos os continentes invocaram seus antepassados para reforçar sua mobilização pelas ruas da cidade paraense.
A marcha teve início às 8h30 na Aldeia COP — base montada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) na Escola de Aplicação da UFPA — e terminou por volta de 11h30 no Bosque Rodrigues Alves.
Com o lema “A Resposta Somos Nós”, adotado pelos povos indígenas e movimentos sociais na COP30, as reivindicações se concentraram em cinco eixos principais: reconhecimento territorial como política climática; desmatamento zero e fim da exploração de combustíveis fósseis e mineração nos territórios; proteção de defensores indígenas; financiamento climático direto; e participação com poder real nas negociações.
Kleber Karipuna, coordenador-executivo da APIB, declarou que essa COP reúne mais indígenas do que qualquer outra edição anterior — mas ressaltou que é preciso resistir à pressão de grupos poderosos como o agronegócio, petróleo, mineração e lobbies privados para garantir que seus direitos não sejam esvaziados.
Para os líderes indígenas, avançar na demarcação e homologação de terras é essencial: “Quando isso acontecer, o governo federal estará sinalizando de que lado efetivamente está”, disse Karipuna.
A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, participou da marcha e afirmou que o governo anunciará novas demarcações em breve. Segundo ela, durante a COP, serão publicadas portarias declaratórias e territórios serão oficialmente reconhecidos.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, reconheceu as críticas sobre o ritmo das homologações de terras e afirmou que há conversas diretas com o presidente Lula para novas declarações e demarcações: “é um reconhecimento à história de vocês, que mantêm as florestas de pé”.
Irleusa Robertino, liderança do povo Apiaká, relatou que parte do território de sua etnia ainda não está completamente demarcada. Ela denunciou invasões por madeireiros e mineração ilegal e afirmou que a luta pela demarcação é fundamental para preservar sua cultura e seu modo de vida.
Robertino levou o neto de cinco anos para a marcha para mostrar que a identidade indígena se forma desde cedo, e que as novas gerações estão engajadas em manter o legado dos mais velhos: “eles são a semente da nova geração”, disse ela.
Também participaram indígenas de outros países, que trouxeram suas próprias demandas. Calvin Wisan, do povo Minahasa (Indonésia), destacou a luta contra estruturas coloniais ainda presentes, e disse que sua comunidade enfrenta o desafio de preservar práticas ancestrais diante de pressões religiosas e econômicas.
Já Joan Carling, da Indigenous Peoples Rights International, criticou a violência territorial e pediu responsabilização para invasores: “nossos direitos não são negociáveis”, afirmou, denunciando grilagem, mineração e exploração energética e exigindo justiça climática imediata.
Fonte: Agência Brasil



