Para quem espera um transplante, a chegada de um órgão compatível pode mudar o rumo de uma vida. Na Bahia, mais de 4 mil inscrições estavam nas listas de espera por órgãos como rins, fígado e córneas em junho deste ano. Do outro lado dessa espera, em meio ao luto, famílias precisam decidir se autorizam a doação. Nos sete primeiros meses de 2026, 67% das consultadas disseram não, segundo dados do Registro Baiano de Transplantes divulgados pelo Sistema Oceb. Em 2025, o índice de recusa havia sido de 59%.
Os rins concentram a maior demanda. Em 1º de junho, 2.267 pessoas aguardavam pelo órgão na Bahia. Havia ainda 1.767 inscrições para transplante de córnea, 71 para fígado e dez para coração. Entre janeiro e julho, o Estado realizou 617 transplantes, dos quais 388 foram de córnea, 119 de rim e 32 de fígado. A fila mostra quantos aguardavam em uma data específica; os transplantes somam os procedimentos realizados ao longo de sete meses.
O caminho entre a identificação de um possível doador e a cirurgia envolve profissionais de diferentes áreas. A Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede) chama atenção para uma etapa que muitas vezes começa no pronto-socorro. É ali que médicos podem reconhecer precocemente pacientes com quadros neurológicos graves e acionar as equipes responsáveis pela avaliação e pelos protocolos de doação.
“Embora a maioria dos protocolos ocorra no ambiente das Unidades de Terapia Intensiva, o início de todo o processo frequentemente acontece nas salas de emergência e prontos-socorros, após traumas e quadros neurológicos agudos”, explica o médico Osmar Colleoni, segundo-secretário da Abramede.
Identificar o possível doador é apenas o começo. A equipe precisa prestar os cuidados clínicos necessários, confirmar a morte conforme os protocolos aplicáveis e conversar com os familiares. A presidente da Abramede, Maria Camila Lunardi, destaca que o trabalho inclui “detecção rápida, estabilização clínica orientada à preservação dos órgãos, suporte humanizado aos familiares” e articulação com as equipes hospitalares de doação. A retirada de órgãos após a morte depende de autorização da família.
O desafio também passa pela estrutura de atendimento. A Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab) prevê a implantação de três novos centros transplantadores em unidades públicas nas regiões Norte, Sul e Leste do Estado entre 2026 e 2027. Por enquanto, quem está na fila depende da capacidade da rede atual, da identificação de doadores, da compatibilidade e da autorização familiar.
A conversa sobre doação pode começar muito antes de uma família enfrentar essa decisão no hospital. A vontade de doar pode ser registrada eletronicamente, mas são os familiares que precisam autorizar a doação após a morte. Por isso, a orientação da Abramede é simples: quem deseja ser doador deve dizer isso às pessoas próximas enquanto há tempo para conversar.



