A Bahia pode ter um prejuízo que supera os R$ 13 bilhões no setor do agronegócio. A projeção, apresentada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), tem relação com os possíveis impactos causados pelo Super El Niño nos próximos meses. Além do fenômeno climático, o recente aumento de tarifas comerciais pelos Estados Unidos em setores específicos e a sua influência na economia do estado foram pautas da entidade em entrevista coletiva realizada nesta terça-feira (dia 21).
As projeções elaboradas pela Faeb indicam que um evento climático semelhante, ou ainda mais intenso, ao registrado em 2015/2016, poderá comprometer significativamente a produção agropecuária baiana. Os maiores impactos serão percebidos nas cadeias da pecuária de corte e de leite, cafeicultura e fruticultura, além de itens da cesta básica, como feijão, mandioca e milho.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial. Quando esse aquecimento é mais intenso e persistente, ele passa a ser classificado como Super El Niño e pode, inclusive, elevar a temperatura das águas do oceano em mais de 2 °C. Historicamente, o evento provoca severa redução de chuvas, agravamento da estiagem e ondas de calor extremo no Nordeste do Brasil.
A federação revelou que realizou levantamentos de impactos utilizando as perdas no El Niño de 2023/24. A projeção é de que os prejuízos totais possam superar R$ 13 bilhões, valor puxado pelas grandes culturas agrícolas do estado. Dentro dessas expectativas, R$ 1,13 bilhão está relacionado à pecuária de corte, R$ 339 milhões ao café no Extremo Sul e na microrregião de Vitória da Conquista, R$ 210 milhões à bananicultura em Bom Jesus da Lapa, R$ 171 milhões à cebola na microrregião de Irecê, R$ 114 milhões à produção de leite no estado e R$ 102 milhões à laranja no litoral norte.
Milho, mandioca, castanha de caju, feijão e apicultura também figuram entre as atividades altamente sensíveis à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas.
Minimizar a crise
Diante da ameaça ao ao campo, a Faeb encaminhou um ofício ao governo do estado propondo um conjunto de medidas preventivas para minimizar os impactos de uma possível crise climática. O presidente da entidade, Humberto Miranda, explicou que as principais propostas apresentadas incluem ações divididas em três frentes: pré-emergenciais, estruturais e pós-crise.
As medidas urgentes exigem o mapeamento e aproveitamento de poços artesianos para a dessedentação animal, o estímulo a pequenos sistemas de irrigação – chamados de pulmões verdes –, para forragem e subsistência, a venda de milho subsidiado via Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), crédito rápido e a desburocratização imediata do reconhecimento de estado de emergência para os 58 municípios que já estão sofrendo com a seca.
Na avaliação da Faeb, a Bahia hoje tem mais condições de enfrentar um evento climático extremo do que esteve em secas anteriores, devido ao grande potencial hídrico subterrâneo e à subutilização das bacias hidrográficas do estado na irrigação. “Nós precisamos fazer um projeto de Estado, para que a gente acabe com essa demanda do carro-pipa, da cesta básica e do desespero toda vez que tem uma seca. Porque tem saída e o mundo já mostra isso para a gente”, declarou Humberto Miranda.
Cerca de 700 técnicos de campo foram mobilizados em todo o estado para levar assistência e educação preventiva. O foco é ensinar o produtor a criar “reservas estratégicas” de alimentação animal, garantindo a sobrevivência dos rebanhos mesmo sob os impactos mais severos do fenômeno climático.
Tarifaço
Do lado comercial, o desafio vem do mercado internacional. O governo dos Estados Unidos confirmou recentemente a aplicação de novas taxas comerciais a segmentos específicos das exportações brasileiras.
Apesar da apreensão inicial do mercado, a representação institucional do campo ressaltou que a disputa comercial possui contornos mais técnicos e diplomáticos do que propriamente punitivos para o agronegócio baiano em geral. As novas alíquotas, com previsão de entrada em vigor a partir desta quarta-feira (dia 22), decorrem de questionamentos americanos sobre modelos específicos de produção.
Na prática, os números apresentados mostram um impacto restrito e setorial na Bahia. O presidente da Faeb afirmou que o tarifaço não tem força para abalar o PIB agropecuário ou provocar demissões em massa no estado. Do total exportado pelo agro baiano, apenas 6,1% tem os Estados Unidos como destino.
Desse percentual, quase 80% dos produtos da pauta principal (incluindo café, sisal e manga) estão totalmente isentos das taxas. Os novos encargos incidirão apenas sobre uma fatia específica que abrange derivados de couro, produtos agroindustrializados e a exportação de uvas. A expectativa é que as culturas impactadas sejam realocadas para mercados alternativos, especialmente o asiático.



