A Avenida Lafayete Coutinho, mais conhecida como Avenida Contorno, um dos cartões-postais mais emblemáticos de Salvador e privilegiada pela vista para a Baía de Todos-os-Santos, ganhará um novo desenho urbano. O projeto prevê ampliação dos passeios, implantação de ciclovia, construção de três praças, decks de contemplação, novo mobiliário urbano e intervenções nos acessos à Gamboa, ao Solar do Unhão e à Ladeira da Preguiça. Pelo menos, é isso que promete a Prefeitura de Salvador com a requalificação da via, orçada em R$ 20,5 milhões. A ordem de serviço foi assinada pelo prefeito Bruno Reis no último dia 15 de julho, marcando o início da primeira etapa das obras.
Elaborado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) e executado pela Superintendência de Obras Públicas (Sucop), o projeto contempla, nesta primeira fase, o trecho entre o Comando do 2º Distrito Naval e o acesso ao Solar do Unhão. As intervenções incluem a requalificação de 3,6 quilômetros de passeios, implantação de dois quilômetros de ciclovia integrada à malha cicloviária da cidade, construção de três novas praças, instalação de mobiliário urbano, decks voltados para a Baía de Todos-os-Santos, guarda-corpo de vidro para reforçar a segurança dos pedestres e melhorias nos acessos às comunidades do entorno.
Ao assinar a ordem de serviço, o prefeito Bruno Reis afirmou que a intervenção representa a conclusão de um conjunto de investimentos realizados pela Prefeitura para recuperar a região central da cidade.
“Este é o último trecho que resta para requalificar nesta região, que já recebeu melhorias no entorno da Basílica da Conceição da Praia, na antiga Praça Cairu, hoje Praça Maria Felipa, e na Avenida Miguel Calmon. Aqui, também estamos fazendo duas outras obras: uma encosta sustentável e o novo píer da Gamboa”, afirmou.
Recursos
Segundo Bruno Reis, a proposta vai além da recuperação física da avenida e busca ampliar o uso do espaço público e fortalecer a atividade turística.
“Antes abandonado, hoje o Centro Histórico vem recebendo investimentos grandes do poder público. Tudo feito com recursos próprios do município para garantir o acesso da população a uma área belíssima da capital. Essa é uma obra que vai trazer lazer, mais qualidade de vida para as comunidades que vivem aqui no entorno, como Gamboa, Ladeira da Preguiça, Unhão e 2 de Julho, além de criar mais um ponto turístico para Salvador”, declarou.
A presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, Tânia Scofield, ressaltou que o projeto foi concebido para ampliar a acessibilidade e integrar ainda mais a cidade à Baía de Todos-os-Santos.
“Essa obra faz parte da transformação que Salvador vem vivendo sem perder sua identidade. Queremos tornar a Avenida Contorno mais acessível, mais agradável para quem caminha e permitir que as pessoas aproveitem ainda mais a vista privilegiada da Baía de Todos-os-Santos”, destacou.
Moradores querem melhorias, mas expulsão da comunidade
Apesar das expectativas em torno da requalificação, moradores da Gamboa afirmam que a valorização da área também desperta preocupação.
Morador da comunidade, Luciano Ferreira — nome fictício adotado a pedido do entrevistado, que preferiu não ser identificado — afirma que o receio não está nas melhorias anunciadas, mas nos impactos que elas podem provocar sobre quem vive na região.
“Todo mundo quer melhorias. A gente quer uma avenida mais bonita, iluminação, segurança e calçadas melhores. O problema é quando essa valorização chega sem proteger quem já mora aqui. O medo é que aumentem os aluguéis, apareçam empreendimentos voltados para outro público e as famílias acabem sendo obrigadas a deixar a Gamboa”, afirmou.
Segundo ele, esse sentimento é compartilhado por diversos moradores.
“A Gamboa faz parte da história de Salvador. Existe uma comunidade que vive aqui há décadas, que construiu esse lugar. A gente quer fazer parte dessa transformação, e não assistir a ela de longe porque não conseguiu mais permanecer”, completou.
A preocupação manifestada pelos moradores encontra respaldo em reivindicações apresentadas há anos por movimentos que acompanham as transformações do Centro Antigo de Salvador. Entre eles estão o Centro Antigo Sangra e a Ocupação Centro Antigo, que defendem que qualquer projeto de requalificação urbana seja acompanhado por políticas públicas capazes de garantir o direito à moradia e impedir que a valorização imobiliária resulte na expulsão das comunidades tradicionais.
Intervenções
Os movimentos sustentam que intervenções como a da Avenida Contorno são importantes para recuperar espaços públicos, melhorar a mobilidade e fortalecer o turismo, mas alertam que esses investimentos também podem estimular a especulação imobiliária quando não vêm acompanhados de medidas de proteção social. Segundo os coletivos, experiências registradas em outras áreas históricas demonstram que a valorização dos imóveis costuma elevar o preço dos aluguéis, aumentar o custo de vida e pressionar famílias de baixa renda a deixarem bairros onde vivem há décadas.
Além de defender políticas de habitação de interesse social, o Centro Antigo Sangra e a Ocupação Centro Antigo reivindicam maior participação popular na elaboração dos projetos urbanos, preservação do comércio tradicional e instrumentos que assegurem a permanência das comunidades da Gamboa, da Ladeira da Preguiça, do Unhão e de outras áreas históricas. Para os movimentos, revitalizar o Centro Antigo significa recuperar seu patrimônio arquitetônico, mas também preservar sua função social como território de moradia, cultura, trabalho e memória.
Especialistas em planejamento urbano observam que esse processo, conhecido como gentrificação, tem sido registrado em diferentes cidades brasileiras e do exterior. Embora projetos de revitalização tragam ganhos para a infraestrutura, a mobilidade, a segurança e a economia local, também podem acelerar a substituição da população residente por grupos de maior poder aquisitivo quando não são acompanhados de políticas habitacionais e instrumentos de controle da especulação imobiliária.
Gentrificação
A reportagem da Tribuna da Bahia encaminhou questionamentos à Prefeitura de Salvador e à Fundação Mário Leal Ferreira sobre a realização de estudos de impacto social da intervenção, as medidas previstas para evitar processos de gentrificação e a existência de políticas específicas para garantir a permanência das famílias da Gamboa, da Ladeira da Preguiça e do entorno da Avenida Contorno. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.
A requalificação da Avenida Contorno representa uma das maiores intervenções urbanísticas em andamento na região central de Salvador. Enquanto a Prefeitura aposta na recuperação de um dos principais cartões-postais da capital e na ampliação de seu potencial turístico, moradores e movimentos sociais defendem que essa transformação também seja acompanhada por políticas capazes de assegurar que a população que construiu a história da região continue fazendo parte de seu futuro.



