Dois vasilhames cerâmicos, fragmentos de cerâmica e uma machadinha polida com características da tradição arqueológica Tupiguarani foram encontrados entre novembro e dezembro do ano passado em um sítio arqueológico localizado no bairro Marista, na sede de Senhor do Bonfim. Os materiais vieram à tona durante escavações realizadas em uma das frentes de serviço da segunda etapa de ampliação do sistema de esgotamento sanitário do município, obra executada pela Embasa.
Segundo especialistas, os achados reforçam evidências de que os povos Tupiguarani não se restringiram ao litoral baiano, como apontava parte da historiografia, mas avançaram pelo semiárido e mantiveram relações com outras etnias indígenas da região.
De acordo com o gerente de Sustentação Ambiental dos empreendimentos da Embasa, Tiago Chinelli, todos os projetos da empresa passam por avaliação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para verificar a necessidade de acompanhamento arqueológico. Ele explica que as duas etapas da obra de esgotamento sanitário de Senhor do Bonfim foram classificadas como áreas de alto potencial arqueológico. Durante o monitoramento especializado, sítios foram identificados e imediatamente comunicados ao Iphan e ao Inema, que autorizaram o salvamento dos materiais encontrados.
No sítio identificado durante a segunda etapa da ampliação do sistema, o trabalho de salvamento foi conduzido pela empresa Arqueologia Bahia, sob responsabilidade da arqueóloga Nina Rosa Ledoux. As escavações foram concluídas em dezembro de 2025. Após a retirada, as peças passaram a ser cuidadas em um laboratório montado em Senhor do Bonfim, onde ocorre o processo de curadoria do acervo.
O material será encaminhado ao Laboratório de Documentação e Arqueologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, localizado em São Félix. Segundo o responsável técnico da Arqueologia Bahia, Thiago de Souza, a curadoria está em fase final, com o acondicionamento das peças para envio previsto até o fim de fevereiro.
Para a arqueóloga Auritana Gomes, coordenadora do projeto de acompanhamento arqueológico e salvamento do sítio Marista, as peças cerâmicas apresentam características morfológicas e pictóricas marcantes. Ela destaca que esses objetos podem ter sido utilizados tanto no cotidiano quanto em celebrações e rituais funerários, e que a datação desse tipo de material pode ultrapassar mil anos.
O arqueólogo Carlos Costa, integrante do laboratório da UFRB, avalia que o sítio Marista contribui para ampliar o conhecimento sobre a presença dos povos da tradição Tupiguarani no semiárido baiano. Segundo ele, os vestígios encontrados permitem inferir aspectos da organização social e do modo de vida desses grupos. Os vasilhames identificados, finamente decorados, estão associados ao processamento de produtos derivados da mandioca, como farinha, beiju, goma e bebidas, indicando comunidades sedentárias, estabelecidas de forma permanente no território, com produção cerâmica e prática agrícola.
Fonte: Ascom/ Embasa



