O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o acordo com o Irã para encerrar o conflito “acabou”. A declaração foi feita após uma série de ataques americanos durante a noite. Teerã retaliou e atacou alvos americanos na região do Golfo Pérsico.
O que aconteceu
Trump classificou o diálogo com o governo iraniano como “uma perda de tempo” e criticou as autoridades do país. “Para mim, acho que acabou. Eu não quero mais lidar com eles, eles são escória. Sabe o que é escória? São pessoas doentes, são liderados por pessoas doentes. São pessoas violentas e cruéis”, disse durante discurso na cúpula da Otan, na Turquia.
Ao mesmo tempo, o americano disse que permitiria que sua equipe de negociação continuasse as conversas. “Eles querem negociar. São boas pessoas, Steve Witkoff [enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio], Jared Jushner [enviado especial dos Estados Unidos para a paz e genro de Trump], mas eles têm que falar comigo. Até onde eu sei, é uma perda de tempo lidar com eles [iranianos]”, afirmou.
“Fizemos um acordo e todos concordaram. Nada de armas nucleares. Fizemos o acordo. Eles saem, falam com a imprensa e dizem que nem sequer conversamos sobre isso. Há algo de errado com eles. Eles são malucos. Para mim, acabou (…) Temos que nos livrar do câncer deles. E sabe o que se faz? É preciso extirpar o câncer logo no início. E é assim que eu penso.” – Donald Trump
Fala de Trump acontece horas após o Irã afirmar que não continuaria com as negociações de paz até que o republicano “parasse com ameaças”. Ontem, o ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araqchi, afirmou que nem a população, nem as forças armadas se deixam abalar pelas bravatas do americano. O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf, listou cinco supostas violações dos EUA ao acordo. Entre elas estava a continuidade dos ataques de Israel no Líbano e “ameaças constantes de novos ataques”
Os ataques mútuos marcaram uma escalada de violência em um acordo frágil, em vigor havia menos de um mês. Os Estados Unidos informaram na noite de ontem (horário de Brasília) ter lançado “uma série de ataques poderosos contra o Irã” após ofensivas a petroleiros no Estreito de Hormuz.
Como foram os ataques
Presidente dos EUA compartilhou um vídeo de ataque ao Irã. Nas imagens publicadas na rede Truth Social, é possível ver bombas caindo e logo em seguida explosões.
Um dos ataques dos EUA atingiu Bandar Abbas, cidade portuária no Estreito de Hormuz. Em comunicado, o Irã confirmou o ataque, mas disse que o aeroporto da cidade não foi afetado. Outro ataque, no Khuzistão, teria matado uma pessoa e ferido duas.
Um membro da guarda revolucionária do Irã também teria morrido no sudoeste do país. A cidade portuária de Bushehr, onde fica a única usina nuclear de geração de eletricidade, do Irã, também teve explosões.
Comando Central dos Estados Unidos (Centcom, na sigla em inglês) declarou que as ações são respostas a ataques iranianos. Eles comunicaram que a medida visa impor custos pesados ao Irã pelo ataque a “tripulações de navios comerciais formados por civis inocentes em uma via navegável internacional”. Petroleiros comerciais do Qatar e da Arábia Saudita foram atacados pelo Irã em Hormuz ontem, segundo os Emirados Árabes Unidos. O diplomata sênior Anwar Gargash afirmou que os ataques sinalizam que o país é “incapaz de se comprometer com a desescalada” na região.
O preço do petróleo subiu mais de 5% e se reaproxima de US$ 80 após os ataques que ameaçam novamente o fluxo pelo estreito. A alta do petróleo em meio aos novos ataques envolvem as incertezas e eventuais bloqueios na rota responsável pelo trânsito de 20% da produção mundial de petróleo. As interrupções afetam as cadeias de abastecimento de combustíveis e fertilizantes.
Teerã respondeu atacando 85 instalações norte-americanas em Bandar Salman, no Quinto Distrito Naval do Bahrein, e na Base Aérea Ali Al Salem, no Kuwait. Ainda, as forças iranianas abateram um drone MQ-9 dos EUA que tentava interferir na operação. Em comunicado oficial, o comando militar iraniano declarou que o país dará uma “resposta esmagadora” à ação norte-americana.
Teerã alertou que não vai aceitar interferência dos EUA no Estreito de Hormuz. Os militares afirmaram que a única rota segura para navios comerciais e petroleiros na região é a que for determinada pelo Irã.
Memorando durou menos de 30 dias
EUA e Irã confirmaram a assinatura de um cessar-fogo em 14 de junho. O acordo foi elaborado com ajuda do Irã após meses de tentativas e após recusas para encontros presenciais entre os dois países.
O texto assinado tinha 14 pontos, incluindo a suspensão de sanções contra Teerã e o cessar-fogo imediato. O documento, intitulado “Memorando de Entendimento de Islamabad”, também previa um plano de reconstrução de US$ 300 bilhões no país.
Após a assinatura do cessar-fogo, EUA e Irã deveriam ter se encontrado para discutir detalhes do acordo, o que não aconteceu. Negociações foram marcadas para Burgenstock, na Suíça, em 19 de junho, mas foram canceladas em seguida.
O motivo da desistência não foi informado, mas a suspeita era de que ataques de Israel, aliado dos EUA, no Líbano colocassem em xeque o acordo. Os ataques israelenses em território libanês começam a provocar fissuras entre Washington e Tel Aviv. Autoridades de Israel se negavam a parar, enquanto Trump fazia críticas às ofensivas.



