Entrevistas

“O consumo foi elevado a um estatuto quase sagrado”

“O consumo foi elevado a um estatuto quase sagrado”

Quem nunca fez uma compra por impulso e depois se arrependeu? Em entrevista a O Consumidor, o psicólogo e especialista em saúde mental coletiva André Dória explica até que ponto o consumo descontrolado pode ser meramente um aspecto da personalidade ou sintoma de problemas maiores.

 

Coordenador do programa de assistência a pacientes com transtorno bipolar do Espaço Holos, ele esclarece que a intensidade e o ritmo do consumo são parte dos sintomas que se alternam entre as fases de euforia e depressão.

 

Na conversa, André Dória também analisa a sociedade atual do ponto de vista do consumo, que para ele é uma marca fortíssima e particular do tempo em que vivemos. “É como se a gente vivesse num mundo completamente eufórico. Sem freios neste sentido: comprar,comprar, comprar...”.


O psicólogo fala ainda sobre a cultura da ostentação, cuja força ficou evidente como nunca com a moda dos rolezinhos, e diz que a sociedade brasileira ainda não está amadurecida em sua relação com o consumo. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

 

Entrevista - Rafael Brandão


O Consumidor - Uma pesquisa que saiu no ano passado mostrou que quase metade das pessoas já comprou algum produto que nunca foi usado. Também sabemos que pessoas com frequência adquirem produtos que estão acima do orçamento, tendo consciência disso. Como explicar estes comportamentos?

André Dória - Antes de tudo, é importante a gente pensar que o consumo é uma marca do nosso tempo. O consumo foi elevado a um estatuto quase sagrado. Nisso, há projeções e fantasias pessoais. Muitas vezes uma pessoa que está ansiosa ou deprimida pode apelar à aquisição de objetos como uma forma de mascarar, de tentar aliviar esse sofrimento. É como se adquirir objetos – e nem sempre usá-los é importante - fosse um meio de fuga de uma sensação de mal estar, de vazio.

 

 

O que eleva o consumo a esse estatuto de algo tão importante no nosso tempo que é preciso inclusive ter uma justiça própria? O que tem justiça própria hoje em dia? Temos vara da família. Família, como Foucault dizia, é um dos pilares do poder. Temos vara do trabalho, que é outra instituição importante. Temos vara da infância. E consumo.

 

 

No mundo consumista de hoje, há uma imagem que é associada ao produto pelo discurso publicitário. Quando o sujeito compra, ele está pagando não apenas pelo objeto, mas por aquela imagem também.

 

 

O Consumidor - Os rolezinhos e suas consequências têm sido notícia no país todo. Vemos que há uma clara cultura de ostentação entre os jovens da periferia que protagonizaram os eventos.

André Dória - A gente sabe que a maioria dos jovens que promovem e frequentam os rolezinhos é da classe C. E eles consomem mais do que os jovens de classe média. Só que se você for ver, muitas vezes um jovem desses trabalha, ganha um salário mínimo e gasta em um tênis de seiscentos reais. É um consumo ainda numa posição infantil. Há neste consumo algo de pulsional, que é da pulsão, do impulso. Uma imaturidade que tem a ver com a ostentação. 

 

 

O Consumidor - E quando pessoas adultas consomem além do que podem, seja por descontrole ou também para ostentar, você também relacionaria com a imaturidade?

André Dória - Quando eu digo maturidade, não falo nem no sentido emocional, mas em relação com o consumo mesmo. Em países onde a maior parte da população está na classe média há mais tempo, existe uma relação de maior maturidade com o dinheiro. No Brasil, esta nova classe média ainda está emergindo. Isso causa deslumbramento.Agora, existem situações psicológicas das quais o consumo é um sintoma. Por exemplo, a pessoa que tem transtornos de humor. Quando ela está deprimida, costuma não consumir. E não consome nada: não se alimenta, não se relaciona, não compra. Não consome o mundo. No lado oposto, quando a pessoa está eufórica, ela consome tudo compulsivamente, inclusive compras.  Ela acaba também se consumindo, tornando-se ela própria objeto do ato de consumir. Não controla mais. 

 

O Consumidor - Então, consumir muito pouco também pode ser sinal de problemas?

André Dória - Eu me questiono o seguinte: até que ponto o consumo passou ser parâmetro para definir inclusive o que é normal e o que é patológico. Acho a questão é mais complexa do que isso, do que a gente dizer: olha, aquela pessoa tem problemas porque ela não consome ou está consumindo em excesso. Na verdade não é bem assim. Trata-se de um conjunto de fatores. Tanto pode indicar algo mais sério quanto pode ser apenas um traço da personalidade.

 

 

O consumidor - Mas existe inclusive a categorização de um transtorno relacionado à compra compulsiva ou ao vício em compras, a oniomania.

André Dória - Em minha opinião, isso é uma banalização. A partir do momento em que você oferece uma etiqueta médica e chama algo de transtorno, você oferece uma oferta para identificações. Isso pode fazer com que a pessoa se aliene a essa etiqueta e se desimplique do seu processo. Perceba bem como isso pode ser uma faca de dois gumes: você estoura seu dinheiro e depois diz: “não, mas eu tenho oniomania, eu posso”. As pessoas podem acabar se escondendo atrás de um rótulo desses. É bom pensar criticamente quando ouvimos algo assim, como a categorização de um transtorno como esse. 

 

 

O Consumidor - E como identificar se a compra compulsiva é indicativa de algum problema mais sério?

André Dória - A partir do momento em que a compra, o arrependimento e sofrimento passam a se repetir. A pessoa pode começar a pensar se isso não está atrapalhando a vida. Agora, uma compra compulsiva isolada não necessariamente significa um problema maior.

 

 

O consumidor - E nos casos em que existe essa repetição, o que fazer para mudar?

André Dória - Olha, eu acho que é como se a gente vivesse num mundo completamente eufórico hoje em dia. Sem freio neste sentido: comprar, comprar, comprar... Se a pessoa perceber que o comportamento se repete, há sofrimento, há incômodo, procurar uma análise pode ser um caminho importante.

 

 

O Consumidor - Sobre a publicidade: de que formas ela age para seduzir os consumidores?

André Dória - Há certo tempo, eu vi uma propaganda que era assim. Primeiro, tinha um carro que atolava o tempo inteiro, e um homem estava triste por isso. Depois, chegava uma picape que passava por cima daquele lamaçal e não atolava. Havia uma conotação sexual nisso: era como se o dono do carro atolado estivesse impotente. O dono da picape surgia possante, com uma bela mulher ao lado. Era muito clara a referência. Então obviamente o sujeito não compra apenas aquela picape pelas suas qualidades, mas porque ela o transforma em alguém mais potente. Isso para ficar num nível superficial. Ainda tinha um slogan assim: atolar é sofrer. Essa propaganda fala mais do que qualquer explicação.

 

 

O Consumidor -  Com as redes sociais, novas formas de consumo colaborativo têm surgido e crescido. A intenção é mudar a forma como lidamos com a posse e aquisição de produtos. Existem sites, por exemplo, que facilitam a troca de objetos usados. No contexto atual da sociedade consumista, como você avalia iniciativas como essas?

André Dória - Diante da valorização do que é novo e jovem que está associada ao consumo atual, normalmente o que está velho perde valor. O que justifica um apartamento de dois quartos, novo, de sessenta metros quadrados, custar seiscentos mil reais, e no mesmo bairro um apartamento de três quartos, com cento e vinte metros quadrados, custar quatrocentos mil, e mesmo assim você comprar o de seiscentos, com varanda gourmet? Por quê? Existe algo que você está consumindo que não é apenas o lugar onde você vai morar: você está consumindo o novo. Então, nesse sentido, iniciativas como estas são um alento. Porém, eu sou ainda um pouco cético numa cultura como a nossa, ainda sem amadurecimento do ponto de vista da relação com o consumo. 

 

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