Entrevistas

Uma nova forma de consumir

Uma nova forma de consumir

O consumo colaborativo pode mudar o sistema de produção e economia globais? Para a pesquisadora Ana Cirne Paes de Barros, o mais provável é que as práticas hegemônicas continuem a existir, mas novas formas de consumo se espalhem de forma independente, proporcionando maior autonomia aos consumidores. 



Formada em publicidade, Ana vem buscando compreender melhor as relações entre comunicação e consumo. Após um mestrado sobre relacionamento entre empresas e consumidores nas mídias digitais, ela agora realiza um doutorado sobre consumo colaborativo. 

 

Em entrevista concedida a O Consumidor, ela chama a atenção para o fato de que nem todas as iniciativas de consumo colaborativo são sustentáveis, ecológicas ou contrárias ao consumismo: muitas se inserem justamente neste contexto. Os consumidores precisam também estar atentos, pois há casos em que o discurso de consumo colaborativo não passa de propaganda enganosa. 

 

Confira abaixo a entrevista completa.  

 

O Consumidor - Como surgiu seu interesse pelos temas ligados às relações de consumo?

 

Ana Cirne Paes de Barros - Sou formada em Publicidade e Propaganda e no mestrado em Comunicação estudei como as empresas e consumidores se relacionavam nas mídias digitais. Portanto, meu interesse sempre esteve entre a comunicação e o consumo.

 

A partir de algumas leituras do mestrado e da interlocução com a minha orientadora atual, fui cada vez mais me envolvendo com o tema a ponto de propor o consumo colaborativo como objeto de estudo da minha tese de doutorado. Hoje me sinto bem envolvida com o assunto e espero dar conta da complexidade e variedade de práticas que estão ocorrendo.

 

O Consumidor - Diante da atual crise econômica brasileira, que papel as novas (ou mesmo antigas) iniciativas de consumo colaborativo podem desempenhar? 

 

Ana Cirne Paes de Barros - Não sou especialista em economia, mas não atribuiria ao consumo colaborativo à responsabilidade de mudar o cenário atual do Brasil. Antes dessa potencialização do consumo colaborativo que estamos vendo se concretizar nas mídias digitais, diversas crises econômicas existiram e foram superadas a partir de outras estratégias da população e de políticas governamentais.

 

O consumo colaborativo pode até auxiliar ou estimular de algum modo à economia, mas enxergo este fenômeno como um processo que afeta e ao mesmo tempo é afetado pela economia atual, ou seja, que pode ser alternativa, mas que também pode ser de certo modo reprimido pelo contexto.

 

O Consumidor - O consumo colaborativo tem crescido no Brasil. Que ideias ou iniciativas surgidas nestes últimos anos você destacaria?

 

Ana Cirne Paes de Barros - De modo bem geral, as ideias que mais me chamam atenção são aquelas em que indivíduos se organizam entre si, sem a intermediação de empresas. Digo isso porque quando há organizações mediando o consumo colaborativo, é previsível que elas busquem ações dos consumidores que potencializem o seu lucro. Já quando são consumidores entre organizados entre si, as ideias de colaboração geram resultados bem interessantes nas áreas de mobilidade pública, troca de serviços e de bens, estilos de vida, etc.

 

O Consumidor - Em sua avaliação, quais são os principais entraves ou obstáculos que dificultam o avanço das iniciativas de consumo colaborativo no Brasil? Ainda parece haver certo receio das pessoas em relação às formas de consumo compartilhado, além do lobby das empresas que querem impedir alternativas ao consumidor. 

 

Ana Cirne Paes de Barros - Uma pesquisa precisaria ser feita para detectar os eventuais entraves e obstáculos do consumo colaborativo, mas arriscaria dizer que estes dois pontos que você mencionou são realmente prováveis “dificultadores”.  

 

Porém, eles são próprios deste processo de adaptação e transição que estamos vivendo. A frequência de práticas e potência do consumo colaborativo em redes digitais fará com que esta nova lógica do consumo seja gradativamente mais aceita pelas pessoas.

 

Além disso, nas conversas, leituras e pesquisas que venho fazendo, não encontro oposição ou rejeição ao consumo colaborativo. Há, muitas vezes, apenas um desconhecimento do que está sendo ofertado. 

 

Já no que se refere ao lobby de algumas grandes corporações, a força hegemônica permanecerá forte, é importante destacar. Mas, com o surgimento de alternativas, as pessoas terão oportunidade de consumir de outra maneira.

 

É semelhante ao que acontece com a mídia. Ainda temos uma força muito grande das emissoras mais tradicionais e é inegável reconhecer a influência que as mesmas possuem sob a sociedade, mas por outro lado há outras formas de acesso à informação como os coletivos e as mídias alternativas para quem desejar. Este processo faz com que a hegemonia seja de certo modo questionada e ofertada ao consumidor a escolha do que consumir e de que modo consumir. 

 

O Consumidor - Enquanto algumas iniciativas de consumo colaborativo querem modificar paradigmas sobre produção, economia e consumo, outras se acomodam à lógica já existente. Como você vê essa questão?

 

Ana Cirne Paes de Barros - Acho que este é um processo bem natural se observarmos o nosso contexto histórico e social.

 

Estranho seria se a partir de um determinado momento, todas as iniciativas conseguissem implementar uma nova dinâmica que excluísse a forma anterior de obter produtos e serviços.

 

As práticas capitalistas e hegemônicas são muito consolidadas e fortes. Acredito que elas continuarão a existir, mesmo que estes paradigmas que você mencionou continuem sendo rompidos.

 

O bacana, no meu ponto de vista, é que as práticas de consumo colaborativo nos demonstram uma nova forma de consumir, que muitas vezes é independente destas lógicas.

 

Ou seja, enquanto temos empresas que nos convidam para opinar, votar ou até mesmo construir propostas com elas com o objetivo de maximizar a participação de mercado e o lucro de seus proprietários, temos também diversas iniciativas peer to peer, sem intermediadores que buscam vantagem sobre o consumo, que nos dão alternativa de ter acesso a serviços e produtos. 

 

O Consumidor - Em geral, o consumo colaborativo é muito relacionado ao combate ao consumismo. No entanto, se por um lado o consumo colaborativo cresceu muito e se modificou com os avanços tecnológicos das últimas décadas, por outro lado as tecnologias que possibilitaram a disseminação dessas tecnologias, como por exemplo os smartphones, são produzidas e comercializadas de uma forma que fomenta o consumismo. Como equacionar isso?


Ana Cirne Paes de Barros - Uma das questões que estou trabalhando na tese é exatamente este julgamento de valor a respeito do consumo colaborativo. Se ao longo da história o consumo foi compreendido pelo senso comum como algo negativo, o consumo colaborativo parece transformar e até inverter esta avaliação. 

 

Tudo que se relaciona ao tema “colaborativo” é muitas vezes compreendido como positivo, responsável, sustentável e que se contrapõe ao consumismo, a escassez de recursos e etc.

 

Inclusive, acabo de escrever um artigo sobre uma pesquisa bibliométrica em torno do consumo colaborativo que demonstra como os trabalhos publicados sobre o assunto fazem este julgamento positivo das práticas e do conceito.

 

Ainda há muito para se pesquisar, mas aponto que há algumas formas de equacionar esta questão. A primeira delas é entender o consumo colaborativo como uma prática que pode ser construtiva para o bem comum, mas que também pode reproduzir a lógica capitalista. Se seguirmos nesta linha de raciocínio, não será adequado achar que tudo que é proveniente de um consumo colaborativo é legal, ecológico, sustentável. 

  

O Consumidor - O aplicativo WowApp, que promete compartilhar parte de seu lucro com os usuários - contanto que convidem cada vez mais usuários -, foi acusado de funcionar em esquema similar às temidas pirâmides financeiras. Que precauções o consumidor pode ter para não cair em "ciladas" que apenas aparentam ser iniciativas de consumo colaborativo?

 

Ana Cirne Paes de Barros - Em muitos casos o consumo colaborativo é apenas um discurso utilizado como estratégia para convencer e atrair o público. Primeiramente, o consumidor deve identificar se este é o caso da proposta que ele está tendo contato ou se trata de algo colaborativo em sua essência. Também deve estar atento as condições de utilização e as repercussões que a sua participação pode gerar. 

 

Isto significa ler o que será feito com as suas informações, quais as regras e benefícios da utilização, além de checar a opinião de outros membros e participantes. No caso do WowApp, há um apelo para o benefício financeiro que será proporcionado ao consumidor, semelhante aos esquemas de pirâmides que já conhecemos. 

 

Assim, não se tratando de casos mais pontuais em que há risco para o consumidor, normalmente a própria experiência de cada um dirá se aquela prática de consumo é benéfica ou não para o atender a sua necessidade e o seu estilo de vida.

Entrevista

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Vídeos

Rachel Botsman

Autora do livro "O Que é Meu é Seu - Como o Consumo Colaborativo Vai Mudar o Nosso Mundo", Rachel Botsman diz que estamos conectados para compartilhar. Em 15 minutos, ela tenta te convencer que o consumo colaborativo é o caminho.



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